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O Mito da ‘Imprensa 'Livre'

domingo, 2 de novembro de 2014 |

Tudo Saudável, o menor preço em Produtos Naturais

Há mais verdade sobre o jornalismo dos EUA no filme “Kill the Messenger” [lit. “Mate o mensageiro”. No Brasil, parece, o filme recebeu o título de “O mensageiro” – assim se prova que, no Brasil-2014, o problema de não haver aqui NENHUM jornalismo que preste é, sim, MUITO MAIS GRAVE que em outras partes do mundo (NTs)], que denuncia o processo pelo qual as imprensas-empresas dominantes desacreditaram o trabalho do jornalista investigativo Gary Webb, do que no filme “Todos os homens do presidente”, que celebra os feitos dos repórteres que expuseram o escândalo do [prédio] Watergate.

As empresas-imprensa que vendem jornalismo de massa apoiam cegamente a ideologia do capitalismo empresarial. Louvam e promovem o mito da democracia norte-americana – mesmo quando o que se vê é o assassinato das liberdades civis e o dinheiro substituindo o voto. Vivem a fazer mesuras e reverências aos líderes em Wall Street, não importam a velhacaria ou o crime que tenham cometido. (...) As empresas-imprensa que vendem jornalismo de massa selecionam especialistas, sempre colhidos dentro dos centros de poder conservador, para interpretar a realidade e explicar a política. Praticamente sempre republicam press-releases, redigidos por empresas interessadas, nos ‘noticiários’. E todos os ‘buracos’ que permanecem sem completar na explicação e interpretação menos comprometidas, são preenchidos com futricas sobre a vida das ‘celebridades’, futrica sobre a ‘vida dos outros’, futricas em geral, e esportes [mas, só, os esportes nos quais o dinheiro mande quase totalmente (NTs)].

A função essencial das empresas-imprensa que vendem jornalismo de massa é entreter [o que fazem quase sempre muito mal] ou repetir incansavelmente, para as massas, a versão sobre o mundo, as pessoas e os processos, que mais interesse a governos autoritários ou ao dinheiro-nu-e-cru. 

A chamada ‘imprensa’ são sempre empresas comerciais [“empresas-imprensa”] que contratam empregados dispostos, interessados e capazes de curvar-se até o chão no serviço prestado às elites [mas, sim, também há muitos jornalistas que são fascistas SINCEROS, os quais, sendo preciso, até pagariam para ‘noticiar’ o que noticiam (NTs)] e, em seguida, promovem os próprios jornalistas-empregados como ‘celebridades’.  E esses jornalistas-serviçais, que em alguns raros casos recebem salários milionários, convivem na intimidade do poder. São, como escreve John Ralston Saul, “hedonistas do poder”.

Quando Webb, numa série de artigos publicados em 1996 no San Jose Mercury News, denunciou a cumplicidade da CIA na operação de contrabando de toneladas de cocaína para ser vendida nos EUA, para gerar o dinheiro que financiaria o golpe da CIA contra os “Contra” na Nicarágua, toda a imprensa-empresa fez, de Webb, a pior praga jornalística de todos os tempos, no leproso do jornalismo. E ao longo das gerações muitos outros leprosos foram inventados dentro do jornalismo das empresas-imprensa, de Ida B. Wells a I.F. Stone e a Julian Assange.

Os ataques contra Webb recomeçaram recentemente, em jornais como o Washington Post, desde que o filme foi lançado no início desse mês de outubro. Os novos ataques são tentativa de autojustificação. São a tentativa que a imprensa-empresa que vende jornalismo de massa faz, para mascarar a colaboração que sempre houve entre aquela mesma imprensa-empresa e a elite do poder totalitário e/ou do dinheiro-nu-e-cru.

A imprensa-empresa que vive de vender jornalismo de massa, como o resto do establishment liberal, trabalha sempre para autoencobrir sua real função, se autoaplicando uma demão de verniz de valente busca por verdade e justiça. E para manter esse mito, aquelas imprensa-empresas têm de destruir a credibilidade de jornalistas como Webb e Assange, que lançam alguma luz sobre os feitos sinistros e criminosos que se acumulam nas entranhas do império, e que se interessam mais pela verdade dos fatos, do que pela ‘notícia’ ou pelo ‘furo’.

Os principais veículos noticiosos dos EUA, inclusive meu ex-patrão, oNew York Times, que publicou que haveria “praticamente nenhuma prova” do que Webb escrevera – funcionaram como cães de guarda à porta da CIA. Pouco depois da publicação da série em 1996, oWashington Post dedicou quase duas páginas inteiras para atacar o que Webb escrevera. O Los Angeles Times publicou três artigos que, todos eles, atacavam Webb e o que ele escrevera. Foi capítulo sujo, repugnante e vergonhoso, do jornalismo nos EUA. Mas de modo algum foi o único da mesma categoria. Alexander Cockburn e Jeffrey St. Clair, em artigo de 2004, “Como a Mídia e a CIA mataram a carreira de Gary Webb”, detalharam toda a dinâmica daquela campanha nacional de difamação [campanha de difamação de um jornalista profissional, por um lado; mas, por outro lado, campanha de autodesmoralização de todo o próprio jornalismo das imprensa-empresas (NTs)].

O jornal de Webb, depois de publicar um mea culpa para toda a série de artigos, demitiu-o. Webb não voltaria a conseguir trabalhar novamente como jornalista investigativo e, às vésperas de perder a casa onde morava, suicidou-se em 2004. Sabemos, em boa parte por causa de uma investigação no Senado, conduzida pelo então senador John Kerry, que Webb sempre esteve certo. Mas Webb não foi perseguido por ter ou não ter razão, porque, é claro, os bandidos que perseguiram Webb sempre souberam que ele tinha razão. Webb foi perseguido porque expôs a CIA como bando de bandidos traficantes de armas e de drogas. E porque expôs também toda a imprensa-empresa que vende jornalismo de massa, quando depende de fontes oficiais de dinheiro e, por isso, vive como serva covarde do grande dinheiro. E pagou por isso.

Se a CIA introduziu centenas de milhões de dólares em drogas nas periferias de grandes cidades dos EUA, para fazer dinheiro para pagar por uma guerra ilegal na Nicarágua, o que dizer da legitimidade de toda essa gigantesca organização clandestina? O que dizer da chamada “guerra às drogas”? O que dizer da dureza e da indiferença do governo dos EUA em relação aos mais pobres, sobretudo os pretos mais pobres, que estão no olho do furacão docrack epidêmico? O que dizer de operações militares clandestinas, realizadas sem que a opinião pública saiba?

Todas essas eram, precisamente, as perguntas que as elites do dinheiro, as elites do poder, e seus serviçais na imprensa-empresa, tinham de silenciar a qualquer custo.

A imprensa-empresa é pasto para a mesma mediocridade, o mesmo corporativismo, o mesmo carreirismo, que a universidade, os sindicatos, as artes, o Partido Democrata e as instituições religiosas. Penduram-se todos no mesmo mantra de autopromoção, que os apresenta como se fossem imparciais e objetivos, e assim justificam a subserviência deles ao grande dinheiro e ao poder (qualquer poder). A imprensa-empresa escreve e fala – diferente dos acadêmicos que discursam para eles mesmos, naquele velho jargão de teólogos medievais – para ser ouvida e compreendida pela opinião pública. E por essa razão a imprensa-empresa é mais poderosa e mais diretamente controlada pelo grande dinheiro ou por estados autoritários.

A imprensa-empresa tem papel chave na disseminação da propaganda do pensamento do grande dinheiro ou de estados totalitários. Mas, para que essa propaganda tenha eficácia, a imprensa-empresa tem de manter para ela mesma a ficção de independência e de integridade. É indispensável que as verdadeiras intenções, nesse caso, permaneçam ocultas.

Os veículos de comunicação de massa, como C. Wright Mills viu bem, são ferramentas essenciais para manter o conformismo. São eles quem dizem a leitores e telespectadores o que leitores e telespectadores são. São eles quem dizem o que leitores e telespectadores devem aspirar a ser ou a ter. Prometem que ajudarão leitores  e telespectadores a ‘chegar lá’. Oferecem grande variedade de técnicas, conselhos e esquemas que prometem sucesso pessoal e profissional. Os veículos de comunicação de massa, como Wright escreveu, existem, primeiramente, para ajudar os cidadãos a sentirem que são bem-sucedidos e que ‘chegaram lá’, mesmo que não tenham chegado a lugar algum e continuem muito longe de alcançar as próprias aspirações. Usam linguagem e imagens, para manipular e formam opiniões, nunca para promover qualquer genuíno debate ou conversa democrática ou para criar espaços públicos para ação política livre e votação democrática livre e justa.

Todos já estamos convertidos em espectadores passivos do poder e do grande dinheiro, por ação dos veículos de comunicação de massa, que decidem por nós o que é verdade e o que é mentira; o que é legítimo e o que não é. A verdade não é coisa que alguém descubra. Assim está decretado pelos veículos da imprensa-empresa que vende jornalismo de massa.

O divórcio entre a verdade, para um lado, e o discurso e ação, para o outro lado – a instrumentalização da comunicação – não apenas aumentou a incidência da propaganda; ele também corrompeu a própria ideia de verdade, e, portanto, o sentido pelo qual assumimos nossas posições no mundo está destruído” – escreveu James W. Carey em Communication as Culture.

A primeira e principal função dos meios de massa é superar a enorme fenda que separa as identidades idealizadas – essas que, numa cultura de mercadoria movem-se sempre em torno da aquisição destatus, dinheiro, fama e poder, ou, pelo menos, das correspondentes fantasias e ilusões – e as identidades reais. E pode ser muito lucrativo inflar essas identidades idealizadas, amplamente implantadas por anunciantes e pela cultura corporativa. Dão-nos não o que nos faz falta real, mas o que desejamos. Os meios de massa permitem-nos escapar para o viciante mundo do entretenimento e do espetáculo. Acrescenta-se algum ‘noticiário’ a essa mistura [mas “a notícia em primeiro lugar” é sempre mentira (NTs)].

Nunca mais de 15% do espaço de qualquer jornal é devotado a notícias; todo o resto é devotado à mais fútil procura por algo que se chama autoatualização. No rádio e na TV a proporção é ainda mais desequilibrada.

“Essa”, escreveu Mills, “é provavelmente a fórmula psicológica básica dos mass media hoje. Mas, como fórmula, nada tem a ver com o desenvolvimento do ser humano. É só uma fórmula de um pseudo-mundo que a imprensa-empresa inventa e mantém.” (...)

A imprensa-empresa só atacará grupos dentro da elite do poder, quando acontece de o poder dividir-se e de haver disputas dentro do círculo do poder [essa, precisamente, é a situação em 2014, no Brasil. O Partido dos Trabalhadores afinal, felizmente, instalou-se democraticamente no poder federal; e as velhas elites que ainda mantém laços muito fortes fixados dentro do poder federal, está indignada. A imprensa-empresa no Brasil, em 2014, assumiu o lado e a voz da velharia tucano-udenista perdedora (NTs)].

Quando Richard Nixon, eleito pelos Republicanos, e que usou métodos ilegais e clandestinos para calar a imprensa alternativa e para perseguir ativistas antiguerra e líderes negros dissidentes radicais, tentou atacar o Partido Democrata,  foi quando virou alvo da imprensa-empresa. O pecado de Nixon não foi abusar do poder. Nixon viveu anos e anos abusando do poder contra vários grupos de dissidentes, sem que o Establishment se incomodasse com isso. O pecado de Nixon foi que abusou do poder contra uma facção dentro da própria elite do poder [ATENÇÃO: essa frase, com “José Dirceu” em lugar de “Nixon”, pode resumir todo o martírio ao qual a imprensa-empresa condenou, no Brasil, o ministro José Dirceu (NTs)].

O escândalo do edifício Watergate, mitologizado como prova do poder de alguma imprensa-empresa valente e independente, ilustra bem o quão pouco a empresa-imprensa consegue fazer, quando se trata de investigar os centros do poder.

A história foi generosa conosco e nos ofereceu um “experimento controlado” para determinar exatamente o que realmente estava em disputa no período Watergate, quando a posição de desafio assumida pela imprensa-empresa, nos EUA, atingiu o pico. A resposta veio clara e precisa: grupos poderosos têm meios para defender-se, eles mesmos, o que não é surpresa para ninguém. Pelos parâmetros da imprensa-empresa, só há escândalo quando os direitos da própria imprensa-empresa e sua posição de poder são ameaçados” – como escreveram Edward S. Herman e Noam Chomsky em Manufacturing Consent: The Political Economy of the Mass Media.  “Na direção contrária, enquanto as ilegalidades e violações da ordem democrática ficam confinadas a grupos marginais ou só atinjam dissidentes de ataques militares dos EUA, ou resultam num custo difuso, imposto a toda a população, em todos esses casos, ninguém ouve nem sinal de oposição feita pela imprensa-empresa; a imprensa-empresa, toda ela, mantém-se então absolutamente muda e distante. Por isso Nixon pôde ir tão longe, amparado num falso senso de segurança precisamente porque o cães de guarda só latiram quando Nixon começou a representar ameaça contra os privilegiados.”

Os abolicionistas e os que pregavam respeito aos direitos civis; jornalistas investigativos que enfureceram a Standard Oil e os proprietários dos cercados para gado em Chicago; produções de teatro radical como The Cradle Will Rock,* que implodiram os mitos tão caros à classe governante e deram voz a pessoas comuns; os sindicatos de trabalhadores que permitiram que imigrantes, afro-americanos e homens e mulheres trabalhadores  encontrassem dignidade e esperança; as grandes universidades públicas que deram a filhos de imigrantes a chance de ter educação de alta qualidade; os Democratas do New Deal que compreendiam que uma democracia jamais estará segura se não garantir aos cidadãos padrões de vida aceitáveis e se não souber impedir que o estado seja sequestrado pelo dinheiro privado,  nada disso existe mais no panorama dos EUA contemporâneos.

A desgraça de Webb foi trabalhar em tempos em que a imprensa livre e democrática já não passa de clichê, como, também, a própria democracia.
“The Cradle Will Rock,” como quase todo o trabalho popular que foi gerado no Projeto Federal de Teatro criado por Roosevelt no auge da Grande Depressão, deu voz aos anseios da classe trabalhadora, em vez de só repetir anseios e angústias da elite. E ali afinal se expôs a loucura da guerra, a ganância desenfreada e a desenfreada corrupção, a cumplicidade das instituições liberais – especialmente da imprensa – que assegurou proteção à elite no poder e sempre ignorou todos os abusos do capitalismo.

Na peça, o personagem Mister Mister[1] governa a cidade como uma empresa privada:


Acredito que jornais são ótimos para modelar as mentes” – diz Mister Mister. – “Minha indústria de aço depende realmente dos jornais!

Basta o senhor telefonar para a Redação” – responde o Editor de Notícias. – “Imprimiremos todas as notícias que o senhor nos der. De costa a costa, de fronteira a fronteira.”

O Editor de Notícias e Mister Mister cantam em dueto:


“Ah, a imprensa, a imprensa, a liberdade de imprensa.
Nunca nos tirarão nossa liberdade de imprensa!
Temos de ser livres para dizer o que nos vai n’alma...
com um da-da-di-da-da-dá e sim-sim-sim,
a favor de quem pagar mais.”

– “Bem me interessaria uma série de matérias sobre esse jovem, Larry Foreman” –,  diz Mister Mister ao Editor de Notícias.

– “Sei. O tal que anda por aí fazendo agitação e organizando sindicatos” – responde o Editor de Notícias. Já ouvimos falar dele. De fato, só ouvimos falar bem. Parece ser muito popular entre os trabalhadores.”

– “Descubra com quem ele bebe e com quem ele dorme. Vasculhem o passado dele, até achar alguma coisa que o faça parar.”

– “Mas o sujeito é de briga, é pura dinamite. Precisaremos de um exército para segurá-lo” – responde o Editor de Notícias.

– “Ótimo! Sendo assim, vai ser fácil segurá-lo” – conclui Mister Mister. E o dueto recomeça:

“Ah, a imprensa, a imprensa, a liberdade de imprensa.
Nunca nos tirarão nossa liberdade de imprensa!
Temos de ser livres para dizer o que nos vai n’alma...
com um da-da-di-da-da-dá e sim-sim-sim,
a favor de quem pagar mais.”

Chris Hedges
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* A peça, original de 1937, foi  convertida em filme em 1997, sensacional, dirigido por Tim Robbins, com o mesmo título, em port., “O poder vai dançar” http://www.imdb.com/title/tt0150216/  [NTs]
[1] Originalmente, em 1937, o personagem Mister Mister chamava-se Mister Morgan, do milionário J.P. Morgan; o nome do personagem foi depois alterado, mas nada mudou em MM, cujo banco, em 2013, aparecia ainda na lista dos dez mais (bancos) “grandes demais para falir ” (NTs).




Fontes:
Truthdig: The Myth of the Free Press

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